Norte de Minas inicia projeto pioneiro para o diagnóstico molecular da doença de Chagas

Lideranças e pesquisadores da doença de Chagas reunidos em Espinosa - Foto: Keity Emanuelle Sousa

 

Os municípios norte-mineiros de Espinosa e Porteirinha são os dois primeiros do país que, nesta semana, estão recebendo equipes técnicas de profissionais da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), do Ministério da Saúde (MS) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), visando a implementação do Projeto Integra Chagas Brasil. As duas localidades, que estão na área de atuação da Superintendência Regional de Saúde (SRS) de Montes Claros, foram incluídas entre os cinco primeiros municípios prioritários para a execução do Projeto estratégico, que tem o objetivo de ampliar o acesso da população à detecção e tratamento da doença de Chagas crônica nos serviços de atenção primária à saúde. 

Para viabilizar a execução das ações a Fiocruz utilizará, em caráter pioneiro, o Kit NAT Chagas, teste diagnóstico molecular desenvolvido desde 2012 e aprovado no ano passado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

 O Projeto Integra Chagas é coordenado pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas em parceria com a Universidade Federal do Ceará. A iniciativa de implementação e financiamento do Projeto é do Ministério da Saúde e, além de Espinosa e Porteirinha, as ações iniciadas nesta semana em Minas Gerais contemplarão os municípios de São Desidério, sediado na Bahia; Iguaracy, em Pernambuco; e São Luís de Montes Belos, em Goiás.

Terça-feira, 7 de fevereiro, técnicos da SES-MG, do Ministério da Saúde e da Fiocruz participaram de reuniões com lideranças e profissionais de saúde de Espinosa, oportunidade em que detalharam as ações que serão executadas com a participação de instituições sediadas no município. 

Na quarta e quinta-feira, 8 e 9 de fevereiro, os encontros ocorreram em Porteirinha. A SES-MG foi representada pelas referências técnicas, Nilce Almeida Lima Fagundes e Bartolomeu Teixeira Lopes, que atuam nas Coordenadorias de Vigilância em Saúde e Vigilância Epidemiológica da Superintendência Regional de Saúde de Montes Claros. Também participaram dos encontros Swamy Lima Palmeira, Rafaela Silva e Natiela Oliveira, representando o Grupo de Trabalho da Doença de Chagas do Ministério da Saúde; as pesquisadoras da Universidade Federal da Bahia e da Fiocruz, Eliana Amorim e Lileia Gonçalves, respectivamente; e o epidemiologista e infectologista da Universidade Federal do Ceará, Alberto Novaes.

A previsão é de que o Projeto Integra Chagas seja implementado no Norte de Minas até julho de 2024. Nos demais municípios prioritários definidos pelo Ministério da Saúde, a conclusão das atividades está prevista para agosto do próximo ano (2024).

A superintendente regional de saúde de Montes Claros, Dhyeime Thauanne Pereira Marques avalia que “a inserção de municípios do Norte de Minas no grupo prioritário para a intensificação das ações de diagnóstico rápido da doença de Chagas é uma iniciativa importante, pelo fato de se tratar de um dos principais agravos de saúde ainda predominantes na região, e que precisa ter uma atenção especial por parte do poder público”.

 

Avanço tecnológico

Atualmente a confirmação laboratorial da doença de Chagas é feita por exames parasitológicos, que buscam detectar o parasita Trypanosoma cruzi em amostras de sangue. “Em comparação, o teste molecular é mais sensível, pois consegue identificar a infecção mesmo com o fragmento de um parasita na amostra, o que não é possível no exame parasitológico”, observa Constança Felícia Britto, coordenadora do Laboratório de Biologia Molecular e Doenças Endêmicas do Instituto Oswaldo Cruz.

A identificação do Trypanosoma cruzi com o Kit NAT Chagas também é feita a partir de amostras de sangue. O procedimento demora entre quatro a cinco horas e pode ser executado em qualquer laboratório equipado para aplicar a metodologia PCR. Isso permite a descentralização do diagnóstico e agilidade na obtenção de resultados, além da padronização dos testes utilizados em diferentes centros.      

Devido à alta sensibilidade e especificidade, o diagnóstico molecular pode trazer avanços para a identificação de casos agudos de doença de Chagas, especialmente em recém-nascidos, que podem contrair a infecção durante a gestação ou no parto, quando a mãe é portadora do Trypanosoma cruzi. A doença também pode ser diagnosticada durante surtos de infecção oral, que atualmente constituem a forma mais comum de transmissão devido à ingestão de alimentos contaminados. “Esperamos que o Kit NAT Chagas possa aumentar o acesso ao diagnóstico e, consequentemente, ao tratamento das pessoas com doença de Chagas, que são negligenciadas e têm dificuldade de acesso à saúde”, pontua Constança Britto. 

 

A doença

A coordenadora de vigilância em saúde da Superintendência Regional de Saúde de Montes Claros, Agna Soares da Silva Menezes explica que, assim como outras doenças negligenciadas, Chagas está associada a condições de vida de vulnerabilidade. A doença é transmitida pelos insetos triatomíneos, popularmente chamados de barbeiros. “Trata-se de uma das doenças tropicais negligenciadas. Estima-se que, no mundo, entre 6 e 8 milhões de pessoas têm a doença e mais de 75 milhões moram em áreas de risco de contágio”, explica a coordenadora. Ela observa que, diante da grandeza dos números do cenário epidemiológico, a doença precisa de permanente atenção por parte do poder público.

Estimativa da Fundação Oswaldo Cruz aponta que aproximadamente 12 mil pessoas morrem anualmente por causa de Chagas em todo o mundo. Desse total, cerca de 8 mil óbitos têm como vítimas bebês que se infectaram durante a gravidez ou no parto.

Dados do Ministério da Saúde dão conta de que, em 2010, um total de 34.629 gestantes tiveram diagnóstico de infecção e estima-se que 589 crianças nasceram com infecção congênita. 

Por outro lado, a Fiocruz aponta que “são inúmeras as barreiras existentes para o acesso da população a diagnósticos e tratamento da doença de Chagas, a maior delas, a educação. Apenas 1% ou menos daqueles que poderiam se beneficiar obtendo a cura da doença ou a prevenção para formas sintomáticas crônicas, tem real acesso ao tratamento. Em geral, os diagnósticos ocorrem na fase tardia, quando já há comprometimento crônico e complicações, com grave prejuízo às pessoas, suas famílias e comunidades, além de elevado custo ao sistema de saúde”.

Em virtude dessa situação epidemiológica a Portaria 1.061, publicada dia 18 de maio de 2020 pelo Ministério da Saúde, determina que os serviços de saúde, além de oferecer diagnóstico e tratamento, também deverão fazer a notificação compulsória da doença de Chagas. Com isso, será possível criar um banco de dados e ter indicadores que permitam fazer análises epidemiológicas mais precisas para fortalecer a política de controle da doença no país.

Autor: Pedro Ricardo

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