Uma formulação polimérica, biodegradável, capaz de liberar uma dose efetiva de um medicamento potente, no local específico. Esse é o fruto da pesquisa desenvolvida desde 2010 pelo farmacêutico e analista de saúde da Fundação Ezequiel Dias (Funed), Bruno Gonçalves Pereira, já testada e, agora, em estudo de viabilidade de implementação. O resultado é uma inovação no tratamento do câncer. Inicialmente, foram feitos testes em um modelo de câncer de mama em camundongos, mas já foi evidenciado potencial para tratar diversos tipos de câncer, de forma localizada, potencialemte reduzindo efeitos adversos.
Pesquisa
Em seus experimentos, o pesquisador propôs uma nova formulação farmacêutica para a Talidomida – medicamento produzido pela Funed na forma de comprimidos, e usado, atualmente, para o tratamento da hanseníase no Brasil – de forma a aproveitar seu alto potencial terapêutico e minimizar os efeitos adversos que ela pode causar. Ele testou a aplicabilidade dessa formulação no tratamento do câncer.
Bruno Pereira realizou um implante feito com polímero PLGA, que é biodegradável, ou seja, é absorvido pelo próprio organismo com o passar do tempo. O implante libera a talidomida no local especifico e faz o efeito esperado, diminuindo, assim, os efeitos adversos.
“Nós passamos por uma série de etapas, até ela ser aplicada em um modelo animal, em que a gente demonstrou que o tumor nesse modelo animal teve uma redução de 47% de volume em relação a outro grupo que não foi tratado com o implante”, afirma o Bruno. Segundo ele, agora será testado em outro modelo de câncer para gerar mais evidências de eficácia e segurança.
O trabalho de Bruno é uma tese de doutorado que será defendida esta semana (quinta-feira, 27/02, na UFMG). Foi orientado pelo professor da UFMG Armando da Silva Cunha Junior, e co-orientado pela coordenadora da Divisão de Desenvolvimento Farmacotécnico e Biotecnológico da Funed, Silvia Fialho.
Futuro
Bruno explica que esse implante de talidomida ainda não pode ser produzido em escala industrial na Fundação Ezequiel Dias, no entanto, esclarece que, no futuro, caso tenha aceitação no mercado, será perfeitamente viável. De acordo com o farmacêutico, a forma farmacêutica proposta é um implante polimérico produzido por processo que não é realizado atualmente nas fábricas da Funed. “Hoje, nós não temos uma estrutura para produzir esse implante na Funed. Mas já produzimos a talidomida em forma de comprimidos. Pode ser que, no futuro, sendo comprovado para o mercado que esse implante seja interessante, a Funed possa produzi-lo”, explica.
“Trata-se de um projeto de inovação e que está alinhado com os objetivos estratégicos da Funed de incorporar novas tecnologias e fazer desta instituição um importante indutor do desenvolvimento do complexo de saúde de Minas e do Brasil”, afirma o presidente da Funed, Francisco Antônio Tavares Junior.
O apoio ao projeto de Bruno vem também de outras esferas de Governo e de parceiros como o Sebrae. É que a pesquisa já passou por duas etapas de seleção do Programa de Incentivo à Inovação (PII). O Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica, Comercial, Ambiental e Social (Evtecias) inicial indicou a viabilidade. Até o final do ano, nove projetos de pesquisa da Funed com potencial de geração de produto serão selecionados e receberão recursos para continuidade do projeto até a aplicação em humanos e a construção de uma estrutura para a produção.
Incentivo à pesquisa
O programa de Incentivo à Inovação (PII), para o qual o trabalho de Bruno Pereira já foi selecionado, é uma iniciativa do Governo de Minas por meio de uma parceria entre a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Minas Gerais, Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae-MG), centros de pesquisa e universidades. O objetivo é identificar e fomentar projetos de pesquisa que tenham potencial de gerar produtos ou processos inovadores, e que possam ser explorados, no futuro, comercialmente. Além disso, evita que pesquisas fiquem restritas ao universo acadêmico e possam beneficiar a sociedade.
Autor: Werlison Martins